Mesmo com a Selic em patamares elevados (14,50%), o mercado de juros longos oferece assimetrias interessantes para investidores dispostos a aceitar volatilidade em troca de potencial de ganho. Analistas avaliam que as taxas atuais de longo prazo não são sustentáveis no médio e longo prazo devido ao custo elevado para as contas públicas, o que abre uma janela de oportunidade em títulos públicos e crédito privado.
Segundo João Arthur Almeida, diretor de investimentos da Suno Consultoria, a posição em juros longos, especialmente em juro real, apresenta “uma simetria muito positiva”. Quem comprar agora pode se beneficiar caso as taxas caiam, embora o caminho exija estômago para suportar forte volatilidade — às vezes maior que a da Bolsa.
Por que os juros longos estão altos?
A ponta longa da curva reflete principalmente o risco fiscal: dúvida sobre o controle da dívida pública, resultado das eleições e pressão externa (como juros americanos). Mayara Rodrigues, analista de renda fixa da XP Investimentos, explica que o mercado está precificando corretamente o risco atual, mas alerta que “esse não pode ser o novo normal porque não cabe no balanço do governo esse custo da dívida tão alto”.
Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Investimentos, e Roberto Dumas, estrategista-chefe da GCB, reforçam que a inflação ainda exige proteção, mas o cenário atual favorece ativos que combinem segurança e potencial de valorização.
Onde alocar agora? Recomendações dos especialistas
1. Tesouro IPCA+ – O queridinho do momento As NTN-Bs (Tesouro IPCA+) são as principais recomendações para proteção contra inflação. Elas oferecem juro real atrativo e funcionam bem tanto em cenários de inflação controlada quanto em eventuais surpresas de alta de preços.
- Para perfis conservadores ou moderados: foco em vencimentos intermediários.
- Para arrojados: títulos mais longos, com maior potencial de ganho caso os juros caiam.
Mello destaca que “as maiores assimetrias ainda se encontram nas NTN-Bs”. Dumas complementa que prefere IPCA+ a CDI, especialmente com risco de inflação subir dependendo do próximo governo.
2. Prefixados – Cautela adicional Os títulos prefixados exigem mais cuidado. Há um componente forte de inflação implícita nas taxas atuais. A recomendação é usá-los apenas com horizonte de médio a longo prazo e sem acompanhar a marcação a mercado diariamente.
3. Tesouro Selic – Base de segurança Mesmo com Selic alta, o Tesouro Selic continua essencial para liquidez e proteção no curto prazo. Mello sugere manter uma parcela relevante da carteira em pós-fixados, especialmente enquanto a taxa básica não cair de forma mais consistente.
4. Crédito Privado – Oportunidade em meio ao medo O mercado de crédito corporativo vive momento de distorção. Eventos recentes com empresas endividadas (como Raízen, GPA e Ambipar) elevaram os spreads (prêmios de risco), criando assimetria favorável em papéis de alta qualidade.
Nicole Vieira, head de crédito privado da Polo Capital, e Daniel Palaia, gestor da Asset1, veem exagero na correção recente. A recomendação é focar em empresas high grade (alto rating):
- Setor bancário
- Energia
- Saneamento
- Rodovias
- Saúde (exceção pontual para Rede D’Or – RDOR3)
Evitar: empresas cíclicas, fortemente endividadas, de alimentos, logística intensiva em capital e varejo vulnerável.
Como investir: direto ou via fundos?
- Conservadores: Fundos de crédito privado com gestão ativa (melhor diversificação).
- Moderados/Arrojados: Debêntures, CRIs e CRAs diretamente (vantagem fiscal da isenção de IR para pessoa física em alguns casos), sempre com análise profissional.
Riscos e o que evitar
O principal risco é a volatilidade da marcação a mercado nos títulos longos. Além disso, é fundamental evitar empresas com alto endividamento e margens baixas, que sofrem mais com juros elevados.
Almeida lembra que “a volatilidade é muito alta” e que a alocação em longo prazo deve ser compatível com o perfil do investidor.
Conclusão: Oportunidade existe, mas exige disciplina
Os juros longos atuais são insustentáveis no longo prazo, o que cria assimetria positiva para quem posicionar bem a carteira hoje. Tesouro IPCA+ surge como a principal escolha para proteção e ganho, enquanto o crédito privado de qualidade oferece prêmios atrativos após a correção recente.
O segredo é equilibrar: manter liquidez com Tesouro Selic, proteger contra inflação com IPCA+, e buscar rendimento extra no crédito privado high grade. Quem tiver horizonte longo e tolerância à volatilidade pode se beneficiar bastante quando o cenário fiscal e de juros melhorar.
E você, como está posicionado com a Selic ainda alta? Prefere Tesouro IPCA+ ou crédito privado? Deixe sua opinião nos comentários!
Fonte: InfoMoney (04/05/2026) – Reportagem de Leonardo Guimarães com contribuições de Suno, XP, SulAmérica, GCB, Polo Capital e Asset1.
